O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta pessoas de todas as idades, incluindo adultos. No entanto, muitos profissionais de saúde ainda não estão familiarizados com as manifestações mais sutis do autismo na idade adulta. Como resultado, inúmeros adultos permanecem sem diagnóstico, enfrentando desafios diários sem o apoio adequado.
Como fundador da Clínica terapeuTEAr e adulto diagnosticado com autismo aos 28 anos, tenho observado que muitos dos nossos pacientes relatam experiências semelhantes de passar despercebidos pelo sistema de saúde por anos. Neste artigo, vamos explorar detalhadamente 8 sinais sutis de autismo em adultos que frequentemente passam despercebidos, mesmo por profissionais experientes.
É crucial lembrar que estes sinais podem variar de pessoa para pessoa e que a presença de um ou mais deles não constitui um diagnóstico. Se você se identificar com vários destes pontos, recomendo buscar uma avaliação profissional especializada.
Adultos autistas frequentemente experimentam ansiedade intensa ou desconforto significativo quando enfrentam mudanças em suas rotinas, mesmo que essas alterações pareçam insignificantes para os outros.
Exemplos práticos:
- Você se sente extremamente ansioso quando seu trajeto habitual para o trabalho precisa ser alterado devido a obras na rua?
- Fica irritado ou estressado quando alguém muda os objetos de lugar em sua mesa ou em casa?
- Tem dificuldade em se adaptar a novos horários de trabalho ou estudo, mesmo após semanas?
- Sente-se desconfortável ou ansioso quando precisa comer em um horário diferente do habitual?
Esta rigidez cognitiva não é teimosia ou inflexibilidade proposital, mas sim uma característica neurológica que ajuda a pessoa a se sentir segura e previsível em um mundo muitas vezes caótico e imprevisível. Muitos adultos autistas relatam que manter rotinas ajuda a reduzir a ansiedade e a sobrecarga sensorial.
O mascaramento, também conhecido como "camuflagem" ou “masking”, é a habilidade de "atuar" em situações sociais, imitando comportamentos neurotípicos. Embora possa parecer uma habilidade positiva, o mascaramento tem um custo emocional e energético significativo.
Exemplos práticos:
- Após um dia de trabalho ou evento social, você se sente completamente exausto, como se tivesse corrido uma maratona?
- Você ensaia mentalmente conversas ou situações sociais antes que elas aconteçam?
- Sente que está "atuando" um papel em situações sociais, em vez de ser você mesmo?
- Percebe que sua personalidade ou comportamento muda drasticamente dependendo de quem está ao seu redor?
- Já foi elogiado por sua habilidade social, mas internamente sente que está apenas "fingindo"?
O mascaramento prolongado pode levar ao burnout autístico e a problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. Muitos adultos autistas relatam que só percebem o quanto estavam mascarando após o diagnóstico, quando começam a se permitir ser mais autênticos.
Muitos adultos autistas têm a capacidade de se concentrar intensamente em assuntos de interesse por longos períodos, muitas vezes negligenciando outras atividades.
Exemplos práticos:
- Você já passou horas pesquisando sobre um tópico específico, esquecendo-se de comer ou dormir?
- Tem dificuldade em interromper uma atividade que te interessa, mesmo quando precisa fazer outras coisas importantes?
- Seus amigos ou familiares já comentaram que você sabe "tudo" sobre um assunto específico?
- Você se pega frequentemente relacionando conversas aleatórias ao seu tópico de interesse, mesmo quando não é diretamente relevante?
- Já teve problemas no trabalho ou nos estudos por focar demais em uma parte específica de um projeto, negligenciando o resto?
Embora o hiperfoco, muitas vezes, possa ser uma grande força em ambientes acadêmicos ou profissionais, também pode levar a desequilíbrios na vida cotidiana se não for gerenciado adequadamente. Muitos adultos autistas relatam que o hiperfoco é uma das partes mais gratificantes de sua experiência, proporcionando momentos de intensa satisfação e realização.
Muitos adultos autistas relatam desconforto com o contato visual prolongado, mesmo que tenham aprendido a "forçar" o contato visual em situações sociais.
Exemplos práticos:
- Você se sente desconfortável ou ansioso quando precisa manter contato visual prolongado?
- Já foi acusado de não prestar atenção em uma conversa porque não estava olhando diretamente para a pessoa?
- Percebe que olha mais para a boca da pessoa ou para um ponto próximo ao rosto dela durante conversas?
- Sente-se mentalmente "sobrecarregado" ou tem dificuldade em processar o que está sendo dito quando mantém contato visual?
- Já praticou conscientemente fazer contato visual porque aprendeu que é o "correto" socialmente?
É importante notar que a evitação do contato visual não indica falta de interesse ou atenção. Muitos autistas relatam que conseguem se concentrar melhor na conversa quando não precisam manter o contato visual. Alguns descrevem o contato visual prolongado como intenso ou até mesmo doloroso.
A sensibilidade sensorial no autismo nem sempre é óbvia ou extrema. Muitos adultos autistas experimentam incômodo com estímulos sensoriais que outros consideram normais.
Exemplos práticos:
- Você se sente desconfortável ou irritado com luzes fluorescentes ou LEDs, mesmo que outras pessoas não percebam?
- Tem dificuldade em usar certas roupas devido à textura do tecido ou à sensação das etiquetas?
- Fica sobrecarregado em ambientes barulhentos, como shoppings ou restaurantes movimentados?
- Tem preferências alimentares muito específicas baseadas em texturas ou sabores?
- Já foi chamado de "sensível demais" por reagir a odores que outros não percebem?
- Sente-se incomodado com toques leves ou inesperados, como um tapinha nas costas?
Essas sensibilidades podem levar a fadiga, irritabilidade ou dificuldade de concentração em certos ambientes. Muitos adultos autistas desenvolvem estratégias para lidar com essas sensibilidades, como usar fones de ouvido com cancelamento de ruído ou escolher roupas específicas.
Mesmo adultos autistas que parecem socialmente competentes podem ter dificuldades em interpretar expressões faciais, tom de voz ou linguagem corporal.
Exemplos práticos:
- Você já foi surpreendido ao descobrir que alguém estava brincando ou sendo sarcástico, quando você achou que estavam falando sério?
- Tem dificuldade em perceber quando alguém está entediado ou quer encerrar a conversa?
- Já continuou falando sobre um assunto, sem perceber que os outros não estavam mais interessados?
- Precisa que as pessoas sejam diretas sobre como estão se sentindo, em vez de "ler nas entrelinhas"?
- Já foi acusado de ser "insensível" quando na verdade você não entendeu as pistas não-verbais da situação?
Esta dificuldade não indica falta de empatia, mas sim uma diferença na forma como as informações sociais são processadas. Muitos adultos autistas relatam que aprenderam a "decodificar" expressões faciais e tons de voz através de observação consciente e prática, em vez de intuição natural.
Muitos adultos autistas experimentam um atraso no processamento de informações, especialmente em situações sociais.
Exemplos práticos:
- Você frequentemente pensa na "resposta perfeita" para uma conversa horas ou dias depois que ela aconteceu?
- Tem dificuldade em acompanhar conversas rápidas ou em grupo, sentindo-se "um passo atrás"?
- Prefere comunicação escrita (como e-mails ou mensagens) porque te dá mais tempo para processar e responder?
- Já foi chamado de "lento" ou "distraído" quando na verdade você estava processando informações cuidadosamente?
- Precisa de tempo sozinho após interações sociais para "reprocessar" o que foi dito e aconteceu?
Este atraso no processamento não indica falta de inteligência, mas sim uma diferença na forma como o cérebro autista processa informações complexas. Muitos adultos autistas relatam que este tempo extra de processamento lhes permite analisar situações mais profundamente, levando a insights únicos.
Mesmo adultos autistas com alta inteligência podem enfrentar desafios com funções executivas, que incluem planejamento, organização e execução de tarefas.
O burnout autístico é um estado de exaustão física, emocional e mental que pode ocorrer após períodos prolongados de mascaramento ou sobrecarga sensorial.
Exemplos práticos:
- Você já experimentou períodos em que habilidades que normalmente domina (como fala, escrita ou organização) subitamente se tornam difíceis?
- Já teve momentos em que sua tolerância sensorial diminuiu drasticamente, tornando difícil lidar com estímulos que normalmente tolera?
- Experimenta ciclos de alta produtividade seguidos por períodos de exaustão intensa?
- Já sentiu uma necessidade avassaladora de se isolar socialmente após períodos de intensa interação social?
- Percebe que após períodos estressantes, suas "características autísticas" (como estimulação ou necessidade de rotina) se tornam mais pronunciadas?
O burnout autístico é frequentemente cíclico, com períodos de funcionamento relativamente alto seguidos por períodos de exaustão intensa. Muitos adultos autistas relatam que aprender a reconhecer os sinais precoces de burnout e implementar estratégias de autocuidado pode ajudar a gerenciar esses ciclos.
Reconhecer esses sinais sutis de autismo em adultos é crucial para proporcionar diagnósticos precisos e suporte adequado. Como sociedade, precisamos aumentar a conscientização sobre as manifestações diversas do autismo, especialmente em adultos.
Se você se identificou com vários desses sinais, considere buscar uma avaliação com um profissional especializado em autismo em adultos. Lembre-se, um diagnóstico pode ser a porta de entrada para melhor autocompreensão e acesso a suportes adequados.
É importante ressaltar que o autismo é um espectro amplo e diverso. Nem todo autista experimentará todos esses sinais, e a intensidade pode variar significativamente de pessoa para pessoa. Além disso, muitas dessas características podem ser experimentadas por pessoas neurotípicas em algum grau. O que diferencia a experiência autística é a intensidade, a frequência e o impacto dessas características na vida diária.
Na Clínica terapeuTEAr, somos especialistas em diagnóstico e psicoterapia para adultos autistas e com TDAH. Nosso objetivo é te ajudar a entender quem você é, acolhendo e respeitando sua forma única de funcionar no mundo. Você não está sozinho, estamos aqui para te acompanhar nessa jornada.
Quem somos:
A Clínica terapeuTEAr é um espaço criado por pessoas que realmente entendem você. Os fundadores são autistas, pessoas com TDAH e familiares, dedicados ao acolhimento, diagnóstico e psicoterapia especializada para adultos.
Sabemos como é importante sentir-se compreendido e seguro. Por isso, oferecemos atendimento online, disponível onde você estiver, com profissionais experientes, especializados e sensíveis à sua realidade — trabalhando juntos para acolher, diagnosticar e acompanhar você com empatia e responsabilidade.
Somos e referência nacional no cuidado de adultos autistas e com TDAH. Atuamos desde 2021. Trabalhamos com ética, transparência e compromisso: somos uma clínica registrada no CFP e no CRM, com CNPJ ativo e direção clínica conduzida por uma profissional com mais de 19 anos de experiência em atendimento a autistas, TDAH e outras condições.
Você não precisa mais enfrentar isso sozinho. Estamos aqui para ajudá-lo.
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